to waldorf ou not to waldorf?
Sim, faz tempo que não escrevo aqui. Primeiro era a falta de tempo por causa do mestrado, e porque voltei a trabalhar. Aí acabou o mestrado, o trabalho já se acomodou no andar do caminhão de melancias e lá se foram sete meses. Além da falta de tempo, acho que o motivo principal era a falta de assunto. (??!!) Claro que a Elis faz muitas gracinhas e está cada vez maior, falante (na língua dela) linda e saudável, graças a deus. Isso tudo já valeria mil posts, mas acho que sobretudo eu tenho estado em paz com as minhas escolhas e então a necessidade de dividi-las com o mundo, enfim, colocá-las em questão, ficou menor.
Por exemplo, uma pergunta que ainda ouço (cada vez em tom mais ameaçador) é “mas ela ainda mama no peito?”
Sim, ela ainda mama, só a noite antes de dormir, e só quando quer, se quer, e assim será até que eu ou ela não queiramos mais. Ponto.
Próxima pergunta?
“Mas e ela come carne? toma leite de vaca?”
Sim, ela come carne, de vaca, de porco, de frango, e toma leite de vaca, de soja, do que tiver. Come muitas outras coisas também, como brócolis, vagem e beterraba e tem dias que resolve que quer comer só as abobrinhas, ou só o grão de bico. Agora está entusiasmada com a possibilidade de usar a colher mas come quase tudo o que pode pegar com as mãos.
Esse assunto comer, penso, é coisa de foro íntimo, é de cada cultura, de cada casa, de cada família. Eu posso até olhar feio, pensar coisas, mas eu não vou dizer pra você não dar coca-cola ou levar seu filho(a) no Mac Donalds, por mais que eu pessoalmente ache isso um absurdo (UM ABSURDO!). Mas também não vou ficar discutindo vegetarianismo infantil, sacumé? Cada um come o que quer e dá de comer o que tem. Eu só penso em dar coisas saudáveis, e sobretudo dar oportunidade para ela experimentar de tudo e decidir no futuro o que quer e não quer comer. Fim.
Outra pergunta é outro “ainda”: “Mas ela ainda não vai pra escolinha?
Não ela “ainda” não vai.
e emendam: “mas e você não trabalha?”
Sim, eu trabalho. “e quem fica com ela? a empregada? a babá? a vovó?”
Não, não temos empregada, nem babá. As vovós moram longe mas ajudam como e quando podem. Eu e o pai dela alternamos os horários. The end.
Entendem? São coisas que para mim não estão em discussão. Mas eis que agora a decisão não depende mais só da nossa vontade, só do nosso desejo como pais (de ficar aninhados com ela, de prover, de cuidar). Elis, a grande, tem nos dito de várias formas que precisa sair de casa e brincar com outras crianças. Quer um espaço maior, novos desafios. Ela é uma exploradora destemida. E como em Curitiba chove muito, acabamos tendo que ficar muito tempo trancados no apartamento com ela, por mais que tentemos aproveitar ao máximo os dias de sol nos parques. Nem pensar em ir a shoppings, mesmo quando estão vazios, só entro para fazer o estritamente necessário e saio correndo. Casas de amigos, bom, acaba sendo um pouco estressante, principalmente se eles não tem filhos pequenos, pois acabamos ficando o tempo inteiro evitando pequenas catástrofes com objetos que ela pode derrubar, estragar, engolir, etc. E aí que ninguém conversa e ninguém se diverte.
Então decidimos procurar uma escolinha, para ela começar a partir do ano que vem, quando estará com 1 ano e 8 meses.
Poderia ser assim simples, como foi quando eu era criança nos idos 1981 em Lages. Tinha uma escolinha só, pequena, perto de casa, e para lá fomos eu e meu irmão, e para lá foram todos os nossos amigos e vizinhos. Minha professora por dois anos foi a Tia Bernadete. Eu não era uma criança muito extrovertida. Lembro que eu gostava de desenhar, de pintar, de colar tampinhas e brincar com a areia e copinhos de iogurte. Isso, aliás, não mudou.
Mas e aqui, no ano de 2011, com mil opções, como escolher?
Então fui perguntando aqui e ali para outras mães e amigas. E o Pedro foi perguntando lá e acolá para outros pais e amigos e os nomes foram surgindo. Do meu lado, uma palavra recorrente: Waldorf.
(hã?)
Me encantei, confesso, com a proposta. Não apenas com a pedagogia em si, mas com os espaços aconchegantes, com as pessoas amigáveis e sobretudo pesou a admiração que eu tenho pelas mães que me deram a indicação. Gostei da ideia de dar oportunidade para a criança imaginar com brinquedos simples, como um toco de madeira, ao invés de um robô de plástico que vira isso e aquilo. Gostei que as crianças são alfabetizadas mais tarde porque eles priorizam o pensamento concreto numa fase em que a criança ainda não está pronta para receber conceitos abstratos. Achei ótimo que há muitos trabalhos manuais que desenvolvem a coordenação motora fina, que o lanche é natural, preparado e compartilhado com as crianças. Admiro a preocupação em não incentivar o consumismo, em não super estimular as crianças com aparelhos eletrônicos, em promover um reencontro com tudo aquilo que é natural, genuíno.
Porém, a decisão não seria só minha, mas também igualmente do Pedro. A preocupação dele desde o início era que uma escola assim funcionaria como uma bolha, um lugar onde ela estaria protegida do mundo e das pessoas diferentes daquelas poucas que compartilham da mesma ideia. Daí que resolvemos visitar várias escolas com propostas diferentes, sentir os espaços, olhar nos olhos das pessoas. É uma decisão muito delicada e muito pessoal também, de foro íntimo, como a comida, é de cada casa, é de cada família. Muitos fatores pesam, além da metodologia, que claro é muito importante: valores (sociais, ambientais), localização, preço, alimentação, condições de higiene e segurança, tamanho (nem muito grande, nem muito pequeno), espaço (se tem árvores, se tudo é de plástico ou se há outras opções como brinquedos de madeira, se as salas são aconchegantes e arejadas, se há ordem…), se a escola segue algum credo ou prega alguma religião (prefiro que não), como são as pessoas (quem vai ser a professora, como fomos atendidos pelos funcionários e pela coordenação), saúde (se tem algum convênio para emergências médicas), se as crianças parecem calmas e felizes…
Mas sobretudo procurávamos um lugar relativamente pequeno, agradável e seguro, perto de casa, onde ela possa passar umas poucas horas por dia. Nem pensar em período integral. 4 horas no máximo está de excelente tamanho para que ela possa exercitar sua sociabilidade e se movimentar.
E aí que infelizmente as escolas Waldorf não atendem à nossa demanda. Principalmente no quesito segurança: crianças grandes brincam com crianças menores — lindo na teoria, mas na prática crianças menores são atropeladas pelos maiores. Objetos de limpeza do jardim ficam ao alcance de todos. Um FOGÃO (!!!) funciona dentro da sala com crianças de 2-3 anos (e a casa é de madeira! e eu não vi um extintor de incendio em lugar nenhum). Além disso, vi a professora do jardim “esquecer” uma faca de serra em cima da mesinha das crianças enquanto terminava de fazer outra coisa na pia, e as crianças brincavam soltas — soltas demais pro meu gosto num jardim onde elas tem acesso a objetos pesados de madeira como um taco que parece de bets — e se um resolve tacar na cabeça do outro? Vale lembrar que estamos falando de crianças bem pequenas, que expressam suas emoções tão bem quanto um homem das cavernas. Também vi objetos cortantes de metal, como um vasinho de alumínio todo amassado, onde qualquer um pode machucar a mão fácil fácil, até eu. Além do preço, que é caro, da localização, que vai ficar meio fora de mão, e do horário: queremos que ela estude a tarde, quando está mais disposta e ativa, e a escola Waldorf que gostamos mais só atende pela manhã e ainda assim só a partir do segundo semestre, quando ela terá 2 anos completos, e ainda assim “se tiver vaga”.
Também concordo com o Pedro, acho que a preocupação excessiva em oferecer apenas materiais não sintéticos em um mini mundo desconectado da tecnologia é meio fora da nossa própria realidade em casa. Sim temos TV, sim a Elis assiste às vezes aos DVDs do Cocoricó, dos Backyardigans e do Pocoyo. Sim, temos brinquedos de plástico. Falamos no celular, usamos muito o computador. Mas temos muitas outras coisas também, descontadas as heresias tecnológicas: gostamos de livros, de animais, de passear, de cozinhar em casa, de desenhar, de brincar, de escutar música, não somos nada consumistas mas queremos comprar bicicletas novas (vendemos as velhas) para passearmos mais juntos.
Por fim, ainda não decidimos exatamente para qual escola ela irá, mas estamos quase lá. Não vai ser Waldorf por enquanto (never say never). Mas encomendamos uma caixa de giz de cera de abelha quadradinho e um carrinho de madeira para o natal da Elis. Assim teremos um pouco mais de Waldorf em casa, já que muitos dos outros valores já compartilhamos de todo modo.
Para as outras mães, se me pedirem conselhos sobre escolas, vou responder: sigam seus próprios instintos, visitem várias, mas tomem as rédeas da educação de seus filhos, não terceirizem, não deleguem, passem o máximo de tempo com eles. É o que vale.
Beijo e até.
n.
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Ni, você é de Curitiba?
Bem, minha experiência com escola Waldorf foi maravilhosa. Eu também me questionei muito. De repente, estava a Daniela com três anos ralando cenoura com um ralador de verdade, daqueles que volta e meia eu arranco um talho do dedo. E NUNCA se machucou. Como já tínhamos passado por duas escolinhas tradicionais (uma supostamente construtivista ?) sentimos que a adaptação da Dani foi perfeita. Ela deslanchou a falar, corria, pulava, comia super bem. Nós não seguiamos a linha “pais waldorf”, somos internet maníacos, loucos por tecnologia, adoramos comer porcarias, mas respeitávamos a pedagogia e seguíamos o quanto era viável dentro da nossa vida. E, só tiramos ela de lá porque ela pediu para aprender a ler. Fiz grandes amizades e sinto muita falta do clima da escola!!!!!
Beijinhos e boa sorte nessa empreitada!!!!
Adoro essa sua capacidade de perceber e sintetizar bem as coisas, para depois descrevê-las perfeitamente na escrita.
Realmente, prestando atenção nos pontos que te incomodaram, vejo certos perigos que para mim, não existiam até agora :P E imaginei sua exploradora destemida no primeiro dia de aula do Theo. Eram 12 crianças, 2 professoras. Nessa turminha, todos relativamente calmos, o Theo sempre meio devagar. Mas a Elis abriria o forno, tiraria os copos de metal da estante para ver como são brilhantes!, subiria na janela para ver um passarinho lá fora sem se preocupar com o metro e pouco de vão livre fora da mesma e com o chão duro de concreto lá embaixo, pegaria a faca que quase sempre está ao alcance deles na hora de cortar as frutas… praticamente, Dora, a Aventureira.
Seu conselho de seguir os próprios instintos é o melhor. São 12 crianças na minha família, talvez 6 tenham um perfil que poderia se encaixar nessa metodologia, se considerarmos a pré-escola. Quanto ao ensino fundamental, só o tempo dirá. Vai que o Theo me pede insistentemente daqui uns anos pra ir pra uma escola de apostila, crachá e sinal tocando a cada aula? Vou sofrer, mas arrisca eu atendê-lo.
Boa sorte na busca, se eu lembrar de mais alguma boa escola, te aviso. Beijo!